domingo, 8 de agosto de 2010

Programas de voluntariado das empresas trazem benefícios para todos os envolvidos

Dentro do conceito de responsabilidade social, ganham cada vez mais espaço dentro de grandes empresas os programas de voluntariado, que deixam de ser ações pontuais e viram uma prática permanente. Ótimo para a imagem da companhia. Mas, e para o funcionário, qual a vantagem de participar desse tipo de iniciativa? Além de estimular o sentido de solidariedade, dizem especialistas, a integração melhora o clima laboral e acentua a noção de trabalho em equipe. E, em última instância, melhora até a produtividade, pois o funcionário passa a se sentir mais atuante dentro da organização.
A Companhia de Distribuição de Gás (CEG) está estruturando o seu programa de voluntariado, o "Gentileza", formando um grupo de trabalho para desenvolver projetos permanentes. As primeiras ações foram duas campanhas de arrecadação: a "Natal Solidário", realizada em dezembro passado e através da qual funcionários apadrinharam crianças de instituições apoiadas pela empresa, doando brinquedos, roupas, e material escolar; e outra para ajudar os desabrigados pelas chuvas que atingiram o estado em abril.
Gerente de Comunicação da empresa e responsável pelo programa, Fernanda Amaral afirma que a ideia é reunir pessoas de várias áreas da companhia que se interessem pelo voluntariado, pois assim amplia-se o potencial multiplicador.
- Nosso objetivo é reforçar o vínculo dos funcionários com questões sociais e a própria responsabilidade da empresa com essas questões: tudo o que é arrecado nas campanhas pelos funcionários, a empresa doa em igual quantidade. A participação nas duas campanhas foi muito grande, e funcionários até arrecadavam com vizinhos ou em outras empresas por conta própria. O que eles recolhiam, traziam para a CEG, ao invés de doar diretamente, porque sabiam que a empresa ia dobrar a doação - diz Fernanda, ressaltando que o nome do programa foi escolhido de forma participativa por cerca de 80% dos funcionários.
A Ampla desenvolve desde 2004 um programa de voluntariado interno para integrar seus funcionários em ações sociais e beneficiar a população atendida pela empresa. Batizado de "Compartilhar", ele já beneficiou mais de 30 mil pessoas de 14 instituições da área de concessão da distribuidora, que abrange 66 cidades do Estado do Rio. As principais ações do "Compartilhar" são doações e mutirões voluntários. A Ampla realiza periodicamente um mapeamento das instituições mais necessitadas de sua área de concessão, incluindo casas de acolhimento, creches e abrigos carentes e, dependendo da necessidade de cada local, desenha a melhor estratégia para atuar com o programa.
Analista de segurança de informação, Alcir Celso trabalha há 32 anos na Ampla. E afirma que participar do programa de voluntariado lhe trouxe uma outra visão do que é ajudar e participar de uma causa:
- Participo desde 2007, quando li sobre o programa na intranet. Normalmente fazemos serviços de pintura e limpeza em creches. Eu não imaginava que fosse tão bom para mim. Você vai achando que vai só ajudar as crianças, e no fim do dia percebe que você é que foi ajudado com aquela convivência. Não vou parar de participar, já me inscrevi para outra ação que vai acontecer semana que vem.
O diretor de Relações Institucionais da Ampla, André Moragas, afirma que oferecer um programa de voluntariado é importante para que a empresa gere, inclusive, empatia com seus funcionários:
- Vários estudos comprovam que tanto os mais novos quanto os mais velhos não trabalham numa empresa só para estar empregado. Trabalham também por acreditar no que a empresa faz. Cada vez mais o funcionário busca uma causa. É preciso que a empresa, então, ofereça uma causa que se identifique com o valor do funcionário, aquilo que ele já traz de casa. Assim, gera-se o orgulho de trabalhar na companhia. Outro ponto é que muitas vezes o funcionário deseja participar de ações assim, mas não tem tempo fora do seu horário de trabalho. Dar a ele essa possibilidade é muito. No fim das contas, ele acaba tendo um desempanho melhor.
A Unimed-Rio, por sua vez, acaba de dar cara nova ao seu programa de voluntariado. Agora, os próprios funcionários da empresa vão sugerir as ações que gostariam de fazer. Todas as ideias inscritas serão analisadas e priorizadas, e as mais viáveis e alinhadas com a política de sustentabilidade da empresa receberão apoio financeiro, de divulgação e de logística para se tornarem reais.
- Pensamos em permitir que os funcionários deem sugestões de ações a partir da constatação de que o envolvimento de um voluntário com seu trabalho social depende em grande parte de identificação, intimidade com o público assistido e percepção de importância do que se faz. É uma iniciativa pensada para projetos de curta duração, sem continuidade, que poderão ser conduzidos por grupos de colaboradores, seus familiares e amigos de fora da empresa - explica Ana Vargas, gestora de Sustentabilidade da Unimed-Rio.

"Jovens tremendamente abertos ao voluntariado"

Verão desperta o lado humanitário de centenas de pessoas. Abdicam das férias para ajudar;

Quem nunca experimentou pode estranhar. Quem sabe do que fala, garante que se entranha. No Verão, há centenas de pessoas que ocupam as férias a cuidar dos outros. Mas também há ilusões: o voluntariado será menos romântico do que possa imaginar-se.
Um estudo da Universidade Católica estima que haja em Portugal cerca de 1,5 milhões de pessoas a consagrar o seu tempo, ou parte dele, a quem precisa. O número é generoso, "talvez até provável", mas Paulo Cavaleiro, da Assistência Médica Internacional (AMI), é cauteloso. "O voluntariado é um conceito difícil de gerir, de contabilizar e caracterizar. Acredito que haja 1,5 milhões de potenciais - sublinha potenciais - pessoas com vontade de ajudar. Mas esse número representaria 15% da população, parece-me exagerado." E justifica: "É diferente ter vontade de fazer e fazer mesmo, até porque nem sempre é fácil compatibilizar com a vida pessoal ou profissional. E depois há muito voluntariado anónimo e sazonal. E é muito heterogéneo, é difícil dizer quantos são, quanto tempo dedicam, de que forma ou a que tipo de acção".
Não é uma crítica, ressalva Cavaleiro, tanto mais que à AMI, organização que mais iniciativas e voluntários mobiliza em Portugal, chegam incontáveis "pedidos de pessoas com boa vontade, que querem dar o seu legítimo contributo." No entanto, muitas delas "chegam com aquela ideia romântica de que ajudar é ir para África, para os países mais pobres. E se não for possível cumprir essa expectativa - e muitas vezes não é, porque a prioridade é dada a pessoas com competências muito específicas, sobretudo na área da saúde -, desistem."
O padre Manuel Antunes, responsável por dois campos de férias para deficientes no santuário de Fátima, corrobora. "Não basta ter boa vontade, é preciso ter vocação e muita generosidade." Dá o exemplo do projecto que lidera há seis anos: "Trabalhamos com pessoas com limitações físicas e mentais profundas. Ficam connosco durante uma semana para que a família possa descansar um bocadinho. É um trabalho muito duro, violento mesmo. Passa por dar-lhes banho, fazer camas, acompanhá-los, alimentá-los... "
Apesar da exigência, o responsável garante que o feedback é positivo. "É muito gratificante verificar que há jovens que se privam das suas férias para vir para aqui fazer bem a quem precisa. E que se entusiasmam de verdade. E que voltam no ano seguinte." Manuel Antunes faz questão de destruir o que diz ser um mito. "Criou-se a ideia de que os jovens são egoístas e vivem alheados da realidade. Não é verdade. Quando há alguém que os motiva, são tremendamente abertos e disponíveis."
Samuel Infante, responsável pelo Centro de Recuperação de Animais Selvagens, (CERAS) em Castelo Branco, subscreve. "Mais de 80% do trabalho é assegurado por voluntários, pessoas a quem a fauna desperta simpatia e compaixão." Sobretudo ali, pelo facto de se tratar de um hospital, "funciona como catalisador". Por ano, recebem cerca 200 animais, 25% dos quais em vias de extinção, com uma taxa de recuperação de 52%. "A única coisa que pedimos aos voluntários é dedicação, sobretudo no Verão. É a altura do ano em que temos mais animais."
O membro da AMI insiste: "não há voluntariado sem responsabilidade". Daí que haja um enorme cuidado na triagem. "Às vezes precisamos de coisas que são menos românticas. Tentamos explicar às pessoas que esse trabalho é tão determinante como tudo o resto." E muitos entendem.

Dez dicas sobre voluntariado

1. Todos podem ser voluntários

Trabalho voluntário é uma experiência aberta a todos. Não é só quem é "especialista" em alguma coisa que pode ser voluntário. Muito pelo contrário: todos podem contribuir, a partir da idéia de que o que cada um faz bem, pode fazer bem a alguém. O que conta é a motivação solidária, o desejo de ajudar, o prazer de se sentir útil. Muitos profissionais preferem colaborar em áreas fora de sua competência específica, exatamente para se abrir a novas experiências e vivências.

2. Trabalho voluntário é uma via de mão dupla: o voluntário doa e recebe
Voluntariado não tem nada a ver com obrigação, com coisa chata, triste, motivada por sentimento de culpa. Voluntariado é uma experiência espontânea, alegre, prazerosa, gratificante. O voluntário doa sua energia, tempo e talento mas ganha muitas coisas em troca: contato humano, convivência com pessoas diferentes, oportunidade de viver outras situações, aprender coisas novas, satisfação de se sentir útil.

3. Voluntariado é uma relação humana, rica e solidária
Trabalho voluntário não é uma atividade fria, racional e impessoal. É contato humano, oportunidade para se fazer novos amigos, intercâmbio e aprendizado. Este sentimento de estar sendo útil a alguém é uma motivação fortíssima para o envolvimento de pessoas como os idosos, aposentados e portadores de deficiências, que a sociedade tende a desvalorizar e considerar inúteis

4. No voluntariado, todos ganham: o voluntário, aquele com quem o voluntário trabalha, a comunidade

A ação voluntária visa a ajudar pessoas em dificuldade, resolver problemas sociais, melhorar a qualidade de vida da comunidade. Seu sentido é eminentemente positivo: ao mobilizar energias, recursos e competências em prol de ações de interesse coletivo, o voluntariado reforça a solidariedade social e contribui para a construção de uma sociedade mais justa e humana.

5. Voluntariado é uma ação duradoura e com qualidade

O voluntariado não compete com o trabalho remunerado nem com a ação do Estado. Sua função não é tapar buracos nem apenas compensar carências.
Uma sociedade participante e responsável, capaz de agir por si mesma, não espera tudo do Estado, mas tampouco abre mão de cobrar do governo aquilo que só ele pode fazer.

6. As formas de ação voluntária são tão variadas quanto as necessidades da comunidade e a criatividade do voluntário
Tradicionalmente, no Brasil, o voluntariado se concentrou na área de saúde e no atendimento a pessoas carentes. O reconhecimento da urgência de ações nessas áreas não é contraditório com a valorização de novas possibilidades de voluntariado nas áreas de educação, atividades esportivas e culturais, proteção do meio ambiente, etc. Cada necessidade social é uma oportunidade de ação voluntária. Basta olhar em volta e dar o primeiro passo.

7. Voluntariado é ação

O voluntário é um pessoa criativa, decidida, solidária. No trabalho voluntário, não há cartórios nem monopólios. Não há hierarquia de prioridades. Não é preciso pedir licença a alguém, antes de começar a agir. Quem quer, vai e faz.

8. Cada um é voluntário a seu modo

Alguns são capazes individualmente de identificar um problema, arregaçar as mangas e agir. Outros preferem atuar em grupo. Grupos de vizinhos, de amigos, de estudantes ou aposentados, de colegas de trabalho que se mobilizam para ajudar pessoas e comunidades. Por vezes, é uma instituição inteira que se mobiliza, seja ela um clube, uma igreja, uma entidade beneficente ou uma empresa. No voluntariado é assim: não há fórmulas nem receitas a serem seguidas.

9. Voluntariado é escolha

Cada um contribui, na medida de suas possibilidades, com aquilo que sabe e quer fazer. Uns têm mais tempo livre, outros só dispõem de algumas poucas horas por semana. Alguns sabem exatamente onde ou com quem querem trabalhar. Outros estão prontos a ajudar no que for preciso, onde a necessidade é mais urgente. Cada compromisso assumido, no entanto, é para ser cumprido.

10. Voluntariado é um fenômeno mundial

A escolha do ano de 2001, pelas Nações Unidas como Ano Internacional do Voluntariado, representa o reconhecimento internacional do voluntariado como fenômeno contemporâneo e global. Esta celebração é uma oportunidade a ser aproveitada para consolidar o voluntariado no Brasil como componente essencial de uma sociedade cada vez mais democrática e participativa.

O que é voluntariado?

Segundo definição das Nações Unidas, "o voluntário é o jovem ou o adulto que, devido a seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico, dedica parte do seu tempo, sem remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem estar social, ou outros campos..."
Em recente estudo realizado na Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança, definiu-se o voluntário como ator social e agente de transformação, que presta serviços não remunerados em benefício da comunidade; doando seu tempo e conhecimentos, realiza um trabalho gerado pela energia de seu impulso solidário, atendendo tanto às necessidades do próximo ou aos imperativos de uma causa, como às suas próprias motivações pessoais, sejam estas de caráter religioso, cultural, filosófico, político, emocional.
Quando nos referimos ao voluntário contemporâneo, engajado, participante e consciente, diferenciamos também o seu grau de comprometimento: ações mais permanentes, que implicam em maiores compromissos, requerem um determinado tipo de voluntário, e podem levá-lo inclusive a uma "profissionalização voluntária"; existem também ações pontuais, esporádicas, que mobilizam outro perfil de indivíduos.
Ao analisar os motivos que mobilizam em direção ao trabalho voluntário, (descritos com maiores detalhes a seguir), descobrem-se, entre outros, dois componentes fundamentais: o de cunho pessoal, a doação de tempo e esforço como resposta a uma inquietação interior que é levada à prática, e o social, a tomada de consciência dos problemas ao se enfrentar com a realidade, o que leva à luta por um ideal ou ao comprometimento com uma causa.
Altruísmo e solidariedade são valores morais socialmente constituídos vistos como virtude do indivíduo. Do ponto de vista religioso acredita-se que a prática do bem salva a alma; numa perspectiva social e política, pressupõe-se que a prática de tais valores zelará pela manutenção da ordem social e pelo progresso do homem. A caridade (forte herança cultural e religiosa), reforçada pelo ideal, as crenças, os sistemas de valores, e o compromisso com determinadas causas são componentes vitais do engajamento.
Não se deve esquecer, contudo, o potencial transformador que essas atitudes representam para o crescimento interior do próprio indivíduo.